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MORREU GIULIETTA SIMIONATO, O ÚLTIMO ÍCONE DA ÓPERA

Senhoras e Senhores, apresento-lhes uma das mais importantes vozes da ópera:
La Signora Giulietta Simionato.

Muitos se perguntarão: porquê a Giulietta Simionato no encerramento desta exposição sobre Maria Callas?
A resposta é simples: porque privou com Maria Callas, porque foram grandes amigas na vida e no palco e porque é um dos expoentes máximos da vida operática de todos os tempos.

Não vou fazer um discurso laudatório da grande artista, pois nada de novo poderia acrescentar a tudo o que já foi dito e escrito sobre Giulietta Simionato. Algo mais seria redundante. Tentarei, apenas, situar temporalmente as suas passagens pelo São Carlos de Lisboa e relembrar, à guisa de homenagem, alguns nomes de outros enormes cantores que pisaram o palco do nosso Teatro.

Lisboa recebeu pela primeira vez Giulietta Simionato, na temporada de 1952-53, onde assumiu o papel de Dulcineia da ópera de Massenet, Dom Quixote, contracenando com Italo Tajo como titular, Afro Poli no papel de Sancho e Mariano Caruso como Juan, dirigidos pelo Maestro Pedro de Freitas Branco. Foi nos dias 10 e 12 do mês de Abril.

Nesse mesmo mês, a 24 e 29, sendo maestro Molinari-Pradelli, encarnou o papel de Dalila, tendo Ramón Vinay como Sansão. Eram co-primários Duarte de Almeida, Vito Susca, Franco Corena, Mariano Caruso, Armando Guerreiro e Manuel Leitão.

Na temporada seguinte, 1953-54, ano em que tivemos entre nós nomes como Inge Borkh, Marta Mödl, Wolfgang Windgassen, Kurt Böhme ou Georg Solti, passando por Magda Olivero e Tito Gobbi, La Simionato cantou As Bodas de Fígaro, Dom Quixote, D. Carlos (Eboli) e o papel de Mignon, da ópera do mesmo nome.

Na temporada de 1954-55, foi Cenerentola, onde contracenou com Gianna d’Angelo e Sesto Bruscantini. A 29 de Abril e 1 de Maio, protagonizou da ópera homónima de Georges Bizet, o papel de Carmen, com Ana Maria Canali, Franco Corelli e Maria Cristina de Castro, entre outros.

Em Março de 56 encontramos, de Verdi, um D. Carlos com um elenco de luxo:
Anita Cerquetti, Giulietta Simionato novamente como Princesa de Éboli, Valtriani, Maria Cristina de Castro, Carlo Bergonzi, Giuseppe Taddei, Boris Christoff, Stefanoni, Piero di Palma e Vito Susca, dirigidos pelo Maestro Franco Capuana.
Ainda em Março e 1 de Abril Simionato deu voz a Santuzza, na Cavalleria Rusticana, dirigida por Pedro de Freitas Branco. Dias mais tarde, a lendária Maria Caniglia interpretaria de Catalani, La Wally.

Chegamos à temporada de 57-58.
Neste período, foram levados à cena os seguintes 19 títulos:

O Holandês Voador; A Valquíria; Electra; Carmina Burana; Cosi Fan Tutte; Hansel und Gretel; Tá-mar; Falstaff; Italiana em Argel; A Traviata; Manon Lescaut; Rigoletto; Os Diálogos das Carmelitas; A Guerra; Os Palhaços; Príncipe Igor; Elixir do Amor; A Serrana e o Barbeiro de Sevilha.

Nesta temporada de 57-58, subiram ao palco do Teatro de São Carlos grandes nomes femininos da ópera. Consciente da injustiça do critério, cito apenas alguns:
Maria Teresa de Almeida; Maria Cristina de Castro; Birgit Nilsson; Teresa Stich-Randall; Regina Fonseca; Magda Olivero; Renata Scotto; Anna Maria Canali; Gianna Pederzini; Maria Callas; Giulietta Simionato.

A 21 e 23 de Março o Teatro Nacional de São Carlos ouviu pela última vez a voz de Giulietta Simionato, a Senhora que hoje recebemos e homenageamos, quando subiu à cena A Italiana em Argel dirigida por Franco Ghione. Integraram o elenco Ana Maria Canali, Luigi Alva, Sesto Bruscantini, Renato Cesari. Conta quem esteve presente que foram duas récitas triunfais e antológicas.

Quatro dias mais tarde deu-se a Traviata de Lisboa.

Bravíssima Signora:
Il pùblico di Lisbona affetuosamente vi saluta e ringrazia tantìssimo avere accetato com un tal intusiasmo e disponibilità, il nostro invito per essere presente nella chiusura della Mostra Maria Callas – La Mostra di Lisbona, pesando il sacrifizio físico.

Giulia Maria Elvira Simionato.
Giulietta Simionato: Il vostro pùblico vi rend’ommaggio per una carriera piena e luminosìssima.

Grazie, Giulietta Simionato.
Muito obrigado a todos

BIOGRAFIA 
(Marcello Nardis)

Giulietta Simionato nasceu em Forlì em 1910, sendo o pai natural da província de Veneza e a mãe da Sardenha. Tendo passado a infância na Sardenha, a família transferiu-se para Rovigo, onde, quase por acaso, Giulietta começou a receber lições de canto de E. Lucatello e, de seguida, de G. Palumbo. A formação musical séria permitiu-lhe vencer o Primeiro Concurso Lírico promovido pelo Teatro Comunale de Florença, em 1933. A presidente do júri, Rosina Storchio, previu então um futuro certo na música para a jovem artista.

Em 1935, naquele mesmo Teatro, participou na primeira execução de Orseolo, de Pizzetti. Entretanto, pela mão de Tullio Serafin, foi contratada pelo La Scala, com um contrato anual, na qualidade de cover fixa para os papéis de solista co-primário, em cada época. Esta dura tarimba, renovada durante anos, permitiu-lhe aprender e aprofundar uma infinidade de obras que lhe permitiriam iniciar e manter uma carreira que, pela variedade e número de contratos, não tem paralelo em toda a história do teatro lírico mundial de todos os tempos.

Foi somente em 1945 que apareceu no La Scala num papel principal, o de Cherubino nas Bodas de Fígaro de Mozart; mas o verdadeiro ano de consagração foi em 1947 quando, sempre no La Scala, após uma óptima prestação no Cósì fan tutte, se encontrou, de manhã para a noite, a tomar o lugar de Gianna Pederzini, protagonista da Mignon, de Thomas. O ano de 1947 e esta ópera consagraram Giulietta junto do grande público, bem como de toda a crítica italian e estrangeira. Iniciou então a fulgurante carreira que faz de Giulietta Simionato o mezzosoprano mais célebre e completo do século XX. Cimentou-se num repertório vastíssimo que inclui as óperas de Rossini (Cenerentola, L’ italiana in Algeri, Moisé), de Bellini (Capuletti e i Montechi, Norma), de Donizzetti (La favorita, Anna Bolena) e de Verdi (Trovator, Don Carlo, Forza del Destino, Un Ballo in Maschera, Aïda, Falstaff, Rigoletto, Nabucco, Requiem).

A estas juntam-se, entre as principais, Orfeo e Euridice, Sansone e Dalila, Werther, Carmen, Adriana Lecouverur, Arlesiana, Cavalleria rusticana, Fedora, Boris Godunov. Além disso, Giulietta Simionato, com sentido de visão e coerência estilística rara, participou na recuperação de trabalhos como Il ballo delle ingrate, de Monteverdi, Gli Orazi e i Curiazi de Cimarosa, Iphigénie en Aulide, de Glück, Clementina de Boccherini, Giulio Cesare de Haendel, Medea de Cherubini, Les Troyens de Berlioz, Mitridate Eupatore de Scarlatti, Il conte Ory, Tancredi (no papel homónimo), La pietra di paragone, Semiramide, lançando, na primeira pessoa, o que seria definido como a ‘Rossini-renaissance’. Além destas obras, não se pode descurar a presença de Giulietta Simionato nas primeiras execuções de óperas contemporâneas, tais como La morte di Frine, de Roca, Maria Egiziaca e La Fiamma de Respighi, Maria d’Alessandria de Ghedini, Il Re de Giordano, Antigone de Honegger, Amahl e gli ospiti notturni di Menotti, Atlandida de Falla.

Cantou frequentemente no Teatro La Scala todas as óperas do seu repertório (incluindo o papel de Valentina, como soprano, em Les Huguenots de Meyerbeer juntamente com Franco Corelli), ininterruptamente até 1966, ano em que abandonou o teatro lírico com a ópera La clemenza di Tito. Teve exibições, entre tantas outras, no Festival de Edimburgo (onde se iniciou com as Bodas de Fígaro em 1947), Festival de Glyndebourne, Salzburg, em Viena (a partir de 1956), Londres, Madrid, Barcelona, Bilbau, Lisboa, Paris, San Francisco, New York (no Metropolitan a partir de 1959), Chicago, Dallas, Tokyo, etc…

A sua voz, fluida e luminosa, homogénea em toda a textura, particularmente ágil e prolongada no registo agudo, suportada por uma técnica magistral e por um fraseado sempre alerta e cuidadoso, facilitou um repertório que decorre desde o século XVII (Bach) a todo o século XX, inclusive no âmbito discográfico, com testemunhos que constituem ainda um ponto de referência. Giulietta Simionato cantou com as maiores estrelas da ópera, a primeira entre todas, a inesquecível Maria Callas (que a exigiu na sua última Norma, em Paris), colaborou com todos os mais célebres directores de orquestra (de Toscanini a von Karajan, de Mascagni a Bruno Walter, de Stokowski a Kleiber, entre muitos outros) e trabalhou com duas gerações de cineastas (de Giovacchino Forzano a Luchino Visconti, de Zeffirelli a De Lullo, Pizzi etc…).

Sempre atenta ao mundo da ópera, prestou a sua colaboração, durante mais de trinta anos, aos mais importantes Concursos Líricos italianos e internacionais, assegurando a cadeira de Canto no Mozarteum de Salzburg e na Academia do Teatro La Scala de Milão.

 

Data da notícia: 06-05-2010


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